Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



avôs
Pessoa humana

Cláudio Moreno

Um especialista em Conan Doyle explicou, certa feita, que a importância que a correspondência por escrito desempenha nas histórias de Sherlock Holmes só poderá ser bem avaliada se lembrarmos que na Londres vitoriana o correio fazia doze entregas por dia, com o intervalo de uma hora! Computando o tempo destinado à coleta e à distribuição, uma carta levava no máximo três horas para chegar ao destinatário, o que permitia a Holmes rabiscar pela manhã um bilhete apressado para Watson e receber a resposta quando se preparava para acender o tradicional cachimbo de depois do almoço.Com toda essa facilidade, era natural que as pessoas se carteassem intensamente, fazendo com a pena o que depois seria feito pelo telefone. Veio então a santa internet, e todos voltaram a escrever; o correio eletrônico, com sua rapidez de foguete, permite, num ritmo de bate lá, volta cá, um volume espantoso de produção escrita interpessoal (se o leitor computar o número de linhas que costuma escrever por dia, entenderá por que aumentou tanto o interesse por artigos e blogues dedicados a diferentes aspectos de nosso idioma).

Pois um jovem leitor (assim ao menos eu o imagino) escreveu para saber se na frase "todos os especialistas são unânimes" não haveria um erro brabo, um pleonasmo grosseiro como "subir para cima". Em ritmo de pingue-pongue, respondi-lhe sumariamente que não era o caso; o falante tem uma tendência natural a reforçar os vocábulos cujo significado original "desbotou" com o tempo, isto é, deixou de ser percebido por sua comunidade linguística - precisamente o que deveria estar acontecendo com o adjetivo unânime. Assim se explicaria, portanto, aquele reforço com o pronome todos.

Nem vinte minutos eram passados e lá veio ele de novo, fazendo-se de sonso, com um ás tirado da manga: pois não é que tinha esquecido de mencionar, na primeira mensagem, que a frase vinha de uma coluna escrita por mim e publicada aqui, num desses sábados? "Pelo menos o senhor é coerente", acrescentou, "mas ainda acho que juntar todos com unânimes é pleonasmo indesculpável". Pronto, pensei. É daqueles que vêm pedir minha opinião só para ter a oportunidade de discordar - o que, convenhamos, já poderia ter anunciado logo de saída. Pois que seja: um rápido passeio pela internet (ela, de novo e sempre!) forneceu-me centenas de exemplos saídos da pena de juristas, teólogos, sociólogos, escritores e tutti quanti, mas, por brevidade, contentei-me em apresentar-lhe um exemplo de Júlio Dinis, em As Pupilas do Senhor Reitor ("Agora já todos foram unânimes") e outro do próprio Machado de Assis, em A Pianista ("É essa pianista, cuja modéstia todos são unânimes em celebrar...").

Ao que parece, os dois exemplos o convenceram: uma hora depois, o novo e-mail do Burro Falante (este é o seu pseudônimo; convenhamos que tem espírito!) que chegou continha apenas um polido agradecimento pela atenção que lhe dei e uma reclamação final, quase um resmungo: "Por que os escritores clássicos têm tanto prestígio e credibilidade para você, a ponto de considerá-los como referência do que é certo ou do que é errado? Só falta dizer que temos de escrever como eles!". Respondi que não era isso - bem pelo contrário. As gramáticas tradicionais, é verdade, usavam os exemplos dos clássicos como modelos que deveriam ser seguidos; na visão moderna, contudo - outro grande ensinamento do meu mestre Celso Luft, os exemplos dos bons escritores têm valor porque mostram as variadas possibilidades da língua que podemos usar, se quisermos. Ao lembrar que Machado escreveu "todos são unânimes", não estou recomendando que o leitor faça como ele, mas apenas defendendo esta construção como uma forma também válida de se expressar. Ê simples assim: se o grande Machado, com sua extraordinária sensibilidade linguística, sentiu-se confortável com ela, temos de incluí-la entre as escolhas do vasto repertório que é a língua portuguesa.

O mesmo vale, como já mencionei numa antiga coluna, para outras construções que os apressadinhos de hoje vivem a condenar injustamente: elo de união (Machado e Joaquim Nabuco); criar novos (Eça de Queirós, Alencar); exultar de felicidade (Machado); pequenos detalhes (Mário de Sá-Carneiro); regra geral (Vieira, Camilo); estrelas do céu (Eça, Rui e Machado); sorriso nos lábios (Eça, Rui e Camilo); recordar o passado (G Dias e Camilo). Esses que só veem aqui erros a evitar demonstram a intolerância de quem leu muito menos do que devia, e essas lacunas na formação, esse desconhecimento do passado - como alertava o velho Câmara Cascudo, falando sobre os jovens folcloristas desinformados - faz tudo parecer novidade.


Sábado, 23 de outubro de 2010.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.